

HUGO LOPES

VC – Obrigado pela oportunidade, é sempre um gosto falar contigo amigo.
Começava por te pedir que falasses um pouco do teu percurso.
HL – Antes de mais quero agradecer o convite para esta conversa e desejar as maiores felicidades para este teu projeto.
O meu percurso iniciou-se no Clube Social e Desportivo do Bairro da Boavista, depois disso seguiram-se Casa Pia AC, Eléctrico FC e Sertanense FC, deixei de jogar relativamente cedo fruto de alguns problemas físicos.
Comecei a carreira de treinador em 11/12 nos sub 13 do Eléctrico FC, daí para cá passei por vários escalões no clube, passei ainda pela ACD Santo Amaro, UD Rossiense e nas épocas 18/19 e 19/20 fui treinador da Equipa Sénior do Eléctrico FC.
VC - Como é para ti ser treinador num contexto distrital? Já estiveste na distrital de Santarém e na de Portalegre, quais as maiores diferenças no teu ponto de vista?
HL – Ser treinador é uma tarefa muito complexa seja em que nível for, cada divisão aporta ao treinador novos desafios e problemas distintos. Treinar jogadores que chegam ao treino depois de 8h de trabalho é completamente diferente de treinar jogadores que não têm outra ocupação, isso leva a que muitas vezes tenhamos que adaptar as unidades de treino de acordo com o grupo que temos, mas á uma coisa que é comum aos treinadores desde o distrital até á 1ªLiga, todos queremos obter o máximo dos grupos que lideramos e todos exigimos de nós próprios o melhor, treinar uma equipa no distrital tem para mim a mesma responsabilidade e exigência que treinar no CP ou outra divisão.
Existem algumas diferenças desde logo no número de clubes participantes nos respetivos campeonatos distritais, o que acaba por ser natural tendo em conta a densidade populacional dos dois distritos. Como é natural o campeonato de Santarém acaba por se tornar mais competitivo de um modo geral, mas, contudo, acredito que em Portalegre também existe muita qualidade e acredito que as melhores equipas do distrito de Portalegre estão ao nível das melhores do Distrital de Santarém.
VC – Quais as maiores contrariedades que encontraste desde o início da tua carreira no mundo do futebol?
HL –Enquanto jogador , claramente as lesões foram as maiores contrariedades e que acabaram por ditar um fim precoce ao meu percurso como atleta.
Já como treinador a experiencia no distrito de Santarém, foi a mais difícil mas provavelmente a mais rica que tive até aqui. Tudo o que se possa imaginar de errado aconteceu connosco naquele clube, desde prémios prometidos e nunca pagos, jogadores a passar mal por não serem dadas condições, falta de departamento médico, lavandaria etc… Juntando a isto tudo ainda tive um acidente que me levou a estar ausente por muito tempo.
Recordo um jogo da Taça de Santarém em que defrontámos o U.Tomar, eles apresentam-se num autocarro , devidamente equipados, uma comitiva a sério, e nós entramos em campo com os equipamentos ainda sujos e com um cheiro desagradável porque tinham sido utilizados pela equipa de juniores no dia anterior.
Mas ainda assim conseguimos ter um grupo muito interessante e ainda hoje duram as amizades que fizemos nesses meses, foi difícil mas tinha um grupo de seres humanos espetaculares e dos quais me orgulho de poder ter liderado.
VC - E já agora, quais as maiores "riquezas" que podes retirar das tuas experiências?
HL – Mais dos que os troféus conquistados, as amizades que vamos criando ao longo deste tempo ligados á modalidade são a maior Riqueza que se pode ganhar no futebol.
Depois das amizades vem a APRENDIZAGEM o facto de todos os anos lidarmos e liderarmos pessoas com formas completamente diferentes de estar e de ser, obrigam a que estejamos sempre em aprendizagem constante, tanto na forma de liderar como na forma de operacionalizar as nossas ideias enquanto treinadores, jogadores diferentes reagem naturalmente de forma diferente e isso obriga a que tenhamos de refletir e forçosamente evoluir .
VC – Onde te vês num futuro a curto prazo e num futuro mais longo, por exemplo daqui a 10/15 anos?
HL – Sinceramente não penso muito a longo prazo o futebol e a vida são demasiado imprevisíveis para que possa estabelecer metas com muita distancia temporal.
No curto prazo, voltar a treinar é o principal objetivo desde que existam algumas condições de sucesso. Até isso acontecer vou trabalhando de forma a aumentar o meu conhecimento sobre o jogo sobre o treino sobre liderança, procuro aumentar o meu conhecimento para estar devidamente preparado quando surgir nova oportunidade de voltar ao ativo.
VC - Para terminar, podes me dar a tua opinião acerca do futebol distrital? Achas que é possível tornar os clubes mais competitivos e o espetáculo nestas divisões mais apelativo?
HL – Vivemos um momento que pode ser muito importante para a o desenvolvimento do futebol, leio e ouço muita gente preocupada com o facto de se perder muitos atletas muitos apoios etc…Mas eu acredito que este também pode ser o momento para reformular, corrigir e adaptar os clubes. Reformulando os quadros técnicos apostando cada vez mais em pessoas devidamente qualificadas, definindo uma nova política desportiva, explorando novas opções de rentabilizar as marcas dos clubes.
Felizmente já existem muitos jogadores e treinadores de qualidade nos nossos campeonatos distritais e isso mais tarde ou mais cedo acabará por se refletir na qualidade de jogo apresentada pelas equipas, acredito que qualidade da formação dos jogadores tem vindo a melhorar em todos os clubes e isso vai potencialmente resultar em jogos de maior qualidade. O jogo ser mais ou menos apelativos já é uma questão de gosto individual, mas uma coisa é certa com melhores jogadores e treinadores mais qualificados o futebol distrital só tem a ganhar.
Obrigado, desejo-te muito sucesso e que regresses rapidamente ao ativo!
Um grande abraço!
