

DIOGO LOPES

VC – Obrigado pela oportunidade de podermos falar um pouco e partilhares as tuas ideias.
Começava por te pedir que falasses um pouco do teu percurso.
DL – O meu percurso começou na faculdade, na época 2012/2013 em que fui estagiar para o Real SC. Fiz lá o meu estágio de final de curso. Na época seguinte comecei com os benjamins de 1º ano, geração de 2004 que atualmente são juvenis de 2º anos e fui subindo gradualmente de escalão em escalão e agora estou com os iniciados B, geração de 2007.
VC - Como é para ti trabalhar num clube histórico como o Real ? E também falar acerca um pouco do teu projeto de treino individual, era algo que já pensavas ou foi um “efeito colateral” da pandemia?
DL – É um grande privilégio trabalhar num clube histórico como o Real, é sem dúvida um clube distinto na zona de Sintra, todos os miúdos aqui conhecem o Real e gostariam de jogar no Real e isso é fundamental para conseguirmos ter bons miúdos e conseguirmos recrutar outros. No entanto o clube não vive só da sua história, está constantemente a atualizar-se e a tentar encontrar soluções para acompanhar os novos desenvolvimentos do setor. Daí este ter sido o único clube que até agora representei como treinador, por opção, pois aqui dão-me condições boas para aplicar as minhas ideias.
O meu projeto de treino individual já estava a ser pensado antes da pandemia, ele apenas foi acelerado pela mesma. Surgiu por eu achar que havia uma grande oferta de treino complementar individual na componente física, ou seja, muitos jogadores complementavam o seu treino com um personal trainer para lhes ajudar a desenvolver a vertente física. Eu como trabalho com crianças e jovens sou da opinião que para além da componente física, que acho bastante importante e trabalho nos treinos das minhas equipas, eles devem desenvolver sobretudo a componente técnico tática no jogo, daí nos meus treinos individuais tentar conciliar as ações técnicas com um contexto tático possível, estando a trabalhar individualmente. Em suma, o que promovo é um treino de campo, específico para a posição do atleta e individualizado pois as ações a trabalhar com cada atleta são distintas.
VC – Quais as maiores contrariedades que encontraste desde o início da tua carreira no mundo do futebol?
DL – Uma das maiores contrariedades que encontrei foi o facto do futebol de formação se ter tornado um negócio. Nós treinadores estamos bastante condicionados nas nossas decisões, por exemplo na formação do plantel, nas convocatórias, no jogo e inclusivamente no próprio treino. Na formação do plantel há clubes (no Real não é assim) que te condicionam na definição do plantel pois só podem ter 5 atletas por escalão que não pagam mensalidade. Nos outros pontos que mencionei destaca-se a influência dos Encarregados de Educação em todo este processo, no fundo eles estão a pagar um serviço e acham-se no direito de poder opinar e/ou reclamar das opções que os treinadores podem ou não tomar. Com estas situações, a figura do treinador, que estudou e continua a estudar para o ser, acaba por ficar fragilizada na sua ação e tomada de decisão.
VC - E já agora, quais as maiores "riquezas" que podes retirar das tuas experiências?
DL – As maiores riquezas são estar numa zona onde a matéria prima de jogadores é boa e onde me é permitido ter um contexto competitivo elevado devido, não só por jogar contra equipas de renome nacional, como também ao facto de as equipas B jogarem maioritariamente contra equipas 1 ano mais velhas.
VC – Onde te vês num futuro a curto prazo e num futuro mais longo, por exemplo daqui a 10/15 anos?
DL – Não consigo fazer um planeamento a longo prazo na área do futebol, o que tenho para mim como objetivo principal é ser professor de Educação Física. Não tenciono deixar o futebol até porque é algo que me completa e de que gosto bastante, mas não sei se no futuro conseguirei conciliar devido a um conjunto de variáveis que se poderão conjugar. Num futuro próximo vejo-me a continuar o meu percurso sustentado, por enquanto estou bem nos iniciados, mas daqui a uns aninhos queria ter experiências nos juvenis ou juniores.
VC - Para terminar, podes me dar a tua opinião acerca do futebol jovem no Massamá? Lançam imensos atletas que depois são “aproveitados” pelo SL Benfica e Sporting CP, é verdade.. Mas o que se pode fazer para contrariar esse assédio?
DL – Nesse caso não podes fazer nada, não consegues competir contra esses clubes ao nível do recrutamento. Tanto o Benfica como o Sporting têm uma estrutura de recrutamento muito bem organizada, que lhes permite ter alguém a ver qualquer jogo que se realize no distrito de Lisboa. Um exemplo prático foi ter-nos chegado um miúdo para treinar numa das minhas primeiras épocas, fez uma semana de treinos, levamo-lo a um torneio, na semana seguinte já estava a treinar e a assinar pelo Benfica. Esses dois clubes têm muita força não só na zona de Lisboa como no país inteiro.
Onde temos de ser fortes é a tentar recrutar atletas que ainda não têm capacidade para integrar o plantel, ou de Sporting, ou de Benfica e que sejam diferenciados ao nível técnico ou físico. Esses são os atletas a que temos de estar atentos, recrutar e tentar potenciar porque normalmente têm uma grande margem de progressão.
Obrigado, desejo-te muito sucesso nos teus projetos!
Um grande abraço!
