

BRUNO VIVAS

VC – Obrigado pela oportunidade, é sempre um gosto falar contigo amigo.
Começava por te pedir que falasses um pouco do teu percurso.
BV – Antes demais, parabéns pela iniciativa, acredito que são precisas pessoas como tu para que possamos evoluir, partilhar e criar mais conhecimento.
A minha ligação com o futebol foi desde o berço, sempre foi o que fiz desde que me lembro de existir, foi a razão de ter estudado, de escolher determinados caminhos ao invés de outros, de estar focado e de criar objetivos na minha vida. Durante o meu período juvenil e sénior joguei federado entre 2006-2018, onde participei em clubes de campeonato distrital e nacional, tendo tido sempre funções como capitão de equipa. A minha paixão pelo jogo foi sempre muito grande e já como jogador era bastante exigente no meu envolvimento na equipa com os meus treinadores e colegas de equipa.
O meu percurso como treinador ainda é curto, mas as minhas primeiras experiências foram no ano 2012 como treinador de petizes, e desde aí tive sempre ligado a diversos escalões de formação, tendo passados por todas as faixas etárias de desenvolvimento, desde petizes até seniores masculinos e femininos. Comecei a formar-me como treinador em 2016 na Associação de Futebol do Algarve, sendo que em simultâneo frequentava o curso de Psicologia na Universidade do Algarve. A Psicologia sempre teve ligada com aquilo que acreditava que poderia ser o meu futuro no futebol e nas tarefas que iria desempenhar, e foi uma escola muito interessante em que criei bastantes bases pedagógicas e que hoje suportam a minha intervenção com todos os agentes envolvidos no futebol. Em 2018 iniciei o mestrado na ESDRM em treino desportivo e em janeiro de 2019 vim para a Finlândia.
VC - Um treinador jovem num contexto internacional.. Como é para ti viver e trabalhar fora do nosso país com a tua “juventude”?
BV – Tem sido bastante desafiador desde o início em várias vertentes do meu trabalho. Aquilo que é a parte da independência nunca foi um problema porque já vivia sozinho em Portugal e comecei a trabalhar muito cedo, enquanto estudava. Mas principalmente o idioma, as diferenças culturais, o clima, as condições que tive no meu primeiro ano e, fundamentalmente a parte afetiva, como a ausência de suporte familiar e das amizades que faziam que a vida extratrabalho não existisse e o envolvimento e o entorno onde me encontrava fosse sempre o laboral.
A questão da juventude não senti que tivesse sido muito relevante, pelo meu passado, os valores que me foram passados e experiência pessoal, em que aprendi desde muito cedo a ser adulto e a ter muitas responsabilidades associadas no contexto familiar e laboral, comecei a trabalhar muito cedo num restaurante em que tinha tarefas muito variadas e isso deu-me a consciência e a maturidade de ter de me esforçar para atingir os meus objetivos e que tudo o que recolhemos depende do nosso esforço e dedicação, assim como me elucidou que aquele não era o futuro que queria ter.
VC – Quais as maiores contrariedades/riquezas que encontraste desde o início da tua carreira no mundo do futebol?
BV – Não considero que tenha ainda uma carreira, nem estou muito preocupado com isso de momento, acredito que tudo virá no seu tempo. Não considero ter encontrado “contrariedades”, porque costumo perspetivar as coisas como uma oportunidade de crescimento e, felizmente, desde o início do meu percurso sempre tive muitos ambientes e contextos que foram uma oportunidade para lidar e ser sempre melhor. Tive a felicidade de estar sempre envolvido em processos que nunca me deixaram “confortável” nas minhas tarefas, e que tive de lidar com diferentes contextos e situações, visto que desde o meu início de percurso já passei por todos os escalões de formação, diferentes contextos culturais, tarefas de treinador principal, treinador de guarda redes, treinador adjunto, coordenador técnico e estagiário. Tenho procurado em cada uma dessas tarefas dar o melhor de mim e preocupar-me sempre com o projeto do clube e com o clube precisa. Claramente que algumas dessas tarefas não serão uma finalidade nos meus objetivos, mas numa fase inicial do nosso percurso temos de ter essa abertura à experiência e aprendizagem e todas essas tarefas que tive no futebol de formação e sénior foram fundamentais para mim.
VC – Onde te vês num futuro a curto prazo e num futuro mais longo, por exemplo daqui a 10/15 anos?
BV – Cada treinador ou profissional de qualquer área tem o seu percurso, eu acredito em trabalhar todos os dias no limite das minhas capacidades e proporcionar-me constantemente contextos desafiadores e que me permitam evoluir. Preparo-me ser sempre melhor e vou procurar estar sempre num contexto que me proporcione oportunidade de crescimento, que seja desafiante e principalmente que me sinta bem, os projetos que irei estar inserido terão sempre essas premissas. A curto prazo vejo-me no EIF que é o meu clube e no qual tenho contrato até 2023, sinto-me bem neste clube e o meu trabalho tem sido reconhecido, cada vez mais é difícil encontrar um contexto onde te sintas bem, consigas desenvolver as tuas ideias e em que o contexto é desafiador e até ao momento o EIF tem sido isso tudo.
Estou cada vez mais preparado para diversos contextos, sou cada vez melhor profissional e o caminho vai continuar a ser esse. Não quero que isso seja interpretado por falta de ambição, mas acredito que sou um treinador de projeto e se as premissas anteriores forem cumpridas e daqui a 10 anos estiver no EIF, não vejo isso como um cenário impossível. Felizmente estou num grande clube e existe ainda muito a ser feito neste clube no qual me sinto feliz e realizado até ao momento.
VC - Para terminar, podes me dar a tua opinião acerca do futebol Finlandês? Achas que pode chegar a outros patamares competitivos?
BV – O futebol finlandês está num crescimento exponencial, cada vez mais os clubes se estão a profissionalizar na formação e a Federação de Futebol da Finlândia tem sido muito importante nesse processo. Estão a proporcionar recursos aos clubes necessários e direções que vão permitir recolher os frutos a médio/longo prazo. Os clubes cada vez mais apostam na profissionalização, na formação de jogadores e no desenvolvimento destes a longo prazo. Acredito que a organização estrutural dos clubes na Finlândia irá proporcionar verificar mais talentos no futuro e promover a oportunidade de ser jogador profissional na Finlândia. O constrangimento no número de jogos que as equipas da formação têm durante a época é um fator limitador, e a federação está a desenvolver planos para que esse número de jogos possa ser mais acentuado, no entanto, as condições climatéricas durante o mês de dezembro-março obrigam a que existam mais infraestruturas (apesar da Finlândia ser um dos países com mais campos de futebol cobertos) para a prática da modalidade. É também muito comum que os jovens pratiquem diferentes desportos, e os jovens têm um nível de riqueza motora superior aos nossos jovens portugueses, mas o momento de especialização não está definido e isso dificulta o direcionar dos jovens para o rendimento e performance.
O contexto cultural naquilo que diz respeito às condições socio- económicas poderão dificultar este desenvolvimento a longo prazo, mas os clubes acreditam na palavra “projeto” e vivem com sustentabilidade e com uma vida financeira saudável o que vai permitir um crescimento também sustentável a longo prazo. A nível de competição, acredito que a Finlândia vai ser cada vez mais visível na Europa e resultado disso tem sido as boas prestações que a seleção nacional tem produzido.
Obrigado, desejo-te muito sucesso e que continues a representar tão bem o nosso país conforme tens feito até então!
Um grande abraço!
Muito obrigado pela consideração Valter e espero que continues o teu percurso com os valores que tens apresentado até aqui.
Forte abraço
